A. Muhlenberg - Relembrando o Flamengo X Santos
A fase pela qual passa o Flamengo não podia ser pior. Muita fofoca e zero futebol. Um fanzine de futebol lá da gringolândia me pediu pra escrever um texto sobre o grande jogo entre Flamengo x Santos do primeiro turno do Brasileiro. Como os gringos pediram um texto no amor resolvi mandar pra lá a minha própria tradução pão-com-ovo de um texto que escrevi sobre o mesmo jogo para a Revista do Flamengo nª8. Se você ainda não leu dá um confere, pelo menos é de grátis.
Uma tela em branco. O Flamengo fez a sua mais apoteótica apresentação dos últimos anos e o mais longe que cheguei foi até uma tela em branco. Não ia ficar muito legal que a última página da edição especial da Revista do Flamengo dedicada ao fantástico 5 x 4 vermelho e preto conquistado nos domínios santistas saísse toda em branco.
Se ainda fosse a revista do Santos até caberia uma argumentação que talvez citasse o disco de Newton e o resultado da soma de todas as cores, a poesia concretista, a cor das camisas do time praiano. Felizmente não é. Mas depois de quase 30 dias daquela noite encantada da Vila Belmiro a impressão é que sobre ela tudo já foi dito.
Parece que os adjetivos mais precisos, as metáforas mais poderosas, os jogos de palavras mais espertos, as filigranas mais delicadas e as piadas mais inteligentes já foram todas usadas nas incontáveis vezes em que o mais recente melhor jogo de todos os tempos foi contado em prosa, verso, som e imagem por quem o viu e até por que não o viu.
Voltemos à biblioteca, aos antigos. Ah os antigos, esses sim, já viram tudo. Será que na história já houve algo ao menos parecido com o que se viu na noite de 27 de julho de 2011? Será que alguma vez na vida o Flamengo teria sido capaz de sofrer os golpes de um time nocauteador como o Santos logo no primeiro round e terminar nocauteando no assalto final? Improvável. Mas se tratando do Flamengo não custa nada pesquisar. Pois como já disseram, pense num absurdo,no Flamengo há precedente.
Sábio foi aquele que disse que o trabalho dignifica o homem. E mais sábio ainda foi quem completou que aquele não trabalha não come. Com essas ameaçadoras palavras reverberando na mente não foi nada difícil encontrar a crônica do cripto rubro-negro Nelson Rodrigues publicada em O Globo no dia 2 de maio de 1964.
Uma crônica sobre um épico Flamengo x Santos disputado no Maracanã pelo Rio-São Paulo. Um Flamengo x Santos com direito a Pelé, Pepe, Carlinhos, Nelsinho e Espanhol para uma multidão nas arquibancadas. Das quais quase a metade torcia para os dois clubes. Outros tempos aqueles em que ao virar uma página de jornal deparávamos com textos desse coturno:
“ Ontem porém, o Maracanã abriu todos os seus portões. Ninguém pagou nada. Talvez por isso nunca se viu uma multidão tão terna, comovida, lírica e úmida. Éramos 130 e tantos mil caronas, gratíssimos e deslumbrados.
Por outro lado, o jogo valia a pena. Íamos ver o Santos, que voltou a ser o melhor time do mundo; e o Flamengo, o clube que é apenas Flamengo, e repito: – basta-lhe ser eternamente Flamengo e só.”
E a medida em que meus olhos passavam pelas palavras de Nelson Rodrigues era impossível não perceber as semelhanças evidentes entre aquele jogo esquecido de 1964 e o jogo de outro dia que ainda faísca em nossas retinas. O gol relâmpago dos alvinegros, a revoltante imarcabilidade de Neymar, a impotência dos defensores rubro-negros diante da volúpia santista. A reação tão flamenga.Tudo que nos encantou já havia sido visto antes. Visto e magnificamente contado.
“ O estádio veio abaixo quando Pelé, no primeiro minuto da partida, cabeceou um centro prodigioso de Pepe. (…) E mais tarde, o estádio rebentou, novamente, quando Paulo Chôco enfiou o seu. Uma reação atroz. Podia-se supor que o mundo era Santos e que todo o mundo era Flamengo.
Foram 90 minutos de tensão dionisíaca. Depois o Santos desempatou para o Flamengo empatar, novamente. (…) Mas quando se pensava que o certame estava morto, enterrado, Aírton fez o terceiro “goal” rubro-negro, um golaço que assombrou o Maracanã.”
Sim, já lá no distante maio de 64 Nelson Rodrigues comprovava a vocação genética, histórica e recorrente do Flamengo para a façanha, para a proeza e para o épico. Lamentável que hoje falte-nos um Nelson para descrever com semelhante verve o que Felipe, Thiago Neves e Ronaldinho Gaúcho ousaram realizar no gramado da Vila santista. Isto para não falar na descrição da torcida do Flamengo.
“Supõe-se que todas as alegrias se parecem. Mas a verdade é que a alegria rubro-negra não se parece com nenhuma outra. Não sei se é mais funda, ou mais dilacerada, ou mais santa. Só sei que é diferente. Quando Aírton enfiou o terceiro “goal”, eu vi, perto de mim, um crioulão cair de joelhos. Abria os braços para o céu. Seu olhar vazava luz. E do seu lábio grosso pendia como que uma baba elástica e bovina. Sim, aquele admirável negrão estava atravessado de luz como um santo de vitral”.
Depois de se recuperar da leitura de um paragrafo desse naipe até quem não acredita que a história está condenada à eterna repetição descobre que a própria dinâmica dos dois jogo e as intenções motivadoras de suas incríveis reviravoltas dramáticas já tinham sido plenamente explicadas por Nelson Rodrigues há mais de 40 anos.
“(..) o Flamengo tem sido o clube das reações furiosas. Muitas vezes, parece agonizar em campo, e, de repente, eis que se levanta dos seus estertores deslumbrantes. Ontem nós o vimos arrancar para a vitória. Cada jogador doSantos, certo do triunfo, deslizava pela grama, como um cisne do Itamarati. Ao passo que o Flamengo estava a um milímetro da paixão. Fez 2 x 2 e, por fim, 3 x 2. Quando soou o apito final, o Maracanã era rubro-negro, da cabeça aos sapatos.”
Vocês hão de convir que, mesmo sem citar os gols únicos e inesquecíveis de Ronaldinho Gaúcho para o 4 x 4 e para o 5 x 4, depois de um texto intitulado À Sombra das Chuteiras Imortais, assinado por Nelson Rodrigues, sobra menos ainda para se dizer.
Mengão Sempre


